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A expressão “Janela 10-40″ foi criada no final da década de 80 por Luís Bush, do Movimento AD 2000, e tornou-se amplamente conhecida em todo o mundo missionário. É definida como uma área geográfica entre as latitudes 10 e 40 graus acima e ao norte da linha do Equador e entre os oceanos Pacífico e Atlântico. Os países abrangidos por esse retângulo ocupam 35% da área terrestre e contêm 65% da população. Nessa área estão os povos menos evangelizados e mais carentes de nosso planeta. Mas, a verdade é que nós brasileiros temos a nossa “Janela 10/40”, também com enormes necessidades espirituais, sociais e físicas. E em face disso, jamais podemos perder a capacidade de nos sensibilizarmos diante dos quadros que nos são apresentados.

A situação das multidões despertou compaixão em Jesus e isso o levou a alimentá-las, curá-las, ensiná-las e a clamar por pessoas que pudessem cuidar delas (Mt 9.36; 14.14; 15.32; Mc 6.34). Frieza e imobilidade nunca fizeram parte de seu ministério.

Hoje vivemos em um mundo repleto de informações escritas, orais, audiovisuais. A todo o momento tomamos conhecimento de fatos lamentáveis envolvendo inúmeras vidas. O recebimento dessas informações não pode passar de largo sem provocar em nosso coração algum tipo de reação. Tal como Neemias, precisamos ser primeiramente abalados com o que ouvimos e depois precisamos ser movidos em alguma direção. Somente a letargia é inaceitável

No mês de quisleu, no vigésimo ano, enquanto eu estava na cidade de Susã, Hanani, um dos meus irmãos, veio de Judá com alguns outros homens, e eu lhes perguntei acerca dos judeus que restaram, os sobreviventes do cativeiro, e também sobre Jerusalém. E eles me responderam: “Aqueles que sobreviveram ao cativeiro e estão lá na província passam por grande sofrimento e humilhação. O muro de Jerusalém foi derrubado, e suas portas foram destruídas pelo fogo”. Quando ouvi essas coisas, sentei-me e chorei. Passei dias lamentando, jejuando e orando ao Deus dos céus. (Ne 1.1-4).

O resultado foi à reconstrução dos muros e portas de Jerusalém, bem como a restauração moral e espiritual do povo judeu. Isso porque alguém recebeu uma informação e resolveu fazer alguma coisa.

A informação foi o início de uma transformação porque quem a recebeu decidiu que tinha de fazer algo. Saber não bastava, era necessário fazer. Temos de pensar nisso quando folhearmos revistas e jornais, visitarmos sites na internet, ouvirmos a respeito das condições espirituais e sociais de lugares e povos. Precisamos refletir por que determinadas informações chegaram até nós e o que vamos fazer diante delas. Deus espera por reações de nossa parte. E não somente Deus. As próprias situações clamam por pessoas dispostas que venham modificá-las, que acreditem que podem e devem fazer algo.

Esse foi o sentimento de Neemias. Quando ele ouviu as palavras de seu irmão Hanani, no início do livro que leva seu nome, ele não tinha um plano, não tinha recursos, não tinha pessoas compartilhando de suas opiniões. Ele não era alguém “procurando o que fazer”. Ele tinha um ótimo emprego na corte do imperador da Pérsia. Ele jamais planejou deixar aquele lugar confortável para se dirigir a uma cidade em ruínas para restaurá-la. Entretanto, aquelas informações tocaram fundo seu coração e ele partiu para Judá.

Quando o livro de Neemias se encerra, os muros haviam sido reedificados, as portas restauradas e o povo judeu havia sido restabelecido e reanimado. Foi poderosamente movido pelo que ouvira e isso fez toda a diferença.

Podemos encontrar a mesma situação na vida do apóstolo Paulo. Em seu caso as condições deprimentes foram constatadas no próprio local e ele também não ficou insensível diante do quadro que se apresentava ante os seus olhos, assim como Neemias não ficou inativo com o que seus ouvidos ouviram. Lemos no livro de Atos dos Apóstolos:

Enquanto esperava por eles em Atenas, Paulo ficou profundamente indignado ao ver que a cidade estava cheia de ídolos. Por isso, discutia na sinagoga com judeus e com gregos tementes a Deus, bem como na praça principal, todos os dias, com aqueles que por ali se encontravam. Alguns filósofos epicureus e estoicos começaram a discutir com ele. Alguns perguntavam: “O que está tentando dizer esse tagarela?”.

Outros diziam: “Parece que ele está anunciando deuses estrangeiros”, pois Paulo estava pregando as boas novas a respeito de Jesus e da ressurreição. Então o levaram a uma reunião do Areópago. (At 17.16-19)

A idolatria do lugar onde estava moveu-o, constrangeu-o, levou-o a tomar atitudes. De modo que ele foi à sinagoga falar com os judeus. Provavelmente, não só para falar-lhes do Messias que havia chegado, mas talvez para conscientizá-los de que poderiam fazer alguma coisa em relação à idolatria reinante ao seu redor, além de debater diferenças filosóficas. Ainda ia para as praças falar com os filósofos e outras pessoas que para ali se dirigiam. Terminou por ir a uma reunião no Areópago, onde as multidões se reuniam e onde teve oportunidade de palestrar expondo-lhes as grandes verdades de Deus. E isso porque Atenas não era um campo missionário visado. Ele estava ali apenas de passagem enquanto aguardava a chegada de Silas e Timóteo. Todavia, era impossível ficar parado após tomar conhecimento daqueles fatos.

Receber notícias de situações aflitivas e presenciar contextos carregados de idolatria e outros males espirituais ou sociais não é privilégio dos santos da Bíblia. Nosso mundo é repleto de informações e imagens desse tipo. Os contrastes sociais são continuamente expostos pela mídia. Também a condição espiritual de nosso país é facilmente conhecida por diversos meios de informação. O que vamos fazer?

 O NORDESTE BRASILEIRO, UM DESAFIO

Quando pensarmos no Brasil, um país de dimensões continentais, devemos nos deixar comover pelas informações: O número de evangélicos está atingindo a cifra de 25% da população, algo em torno de 50 milhões de pessoas. Será que isso significa que a cada 100 pessoas 25 delas já tiveram uma experiência com Cristo em cada cidade do Brasil? Que em todas as regiões, Estados e cidades a oportunidade de ouvir o evangelho é igual? Ou nossa realidade é um misto de abundância e miséria espiritual, em que a adoração verdadeira ao Deus verdadeiro se mistura com o culto a ídolos e espíritos?

Durante um bom tempo a situação da região Nordeste apresentou o contraste mais significativo. Entre 1980 e 1981 o crescimento populacional dessa região foi de quase 2%, enquanto o crescimento de evangélicos foi de quase 6%. No período de 1991 a 2000, o crescimento populacional não chegou a 1,5% e o crescimento do número de evangélicos nesse período chegou a quase 10%.

Em um primeiro momento esses números nos dão motivo para glorificar a Deus e a pensar que está tudo bem. Mas à medida que outros números surgem, igualmente surgem motivos para preocupações. Esses novos números mostram um quadro não tão positivo.

Por projeção, o percentual de evangélicos na região Nordeste atingiu em 2009 a casa dos 19,2%. Alguém pode dizer que é um número expressivo, todavia é o menor percentual das cinco regiões do Brasil, ficando atrás até mesmo da região Sul. E ainda por cima fica abaixo da média nacional, que é de 25%. Logo, essa é a mesa mais carente, com pão e água apenas.

Ainda é importante saber que dos 11 Estados brasileiros que possuem municípios com população evangélica inferior a um por cento, sete deles estão na região Nordeste. E se considerarmos os Estados com municípios com menos de dois por cento, teremos também 11 Estados, sendo oito deles do Nordeste. Entretanto, esse quadro estatístico esconde uma realidade ainda mais dramática que precisa ser conhecida. Como comentou o pesquisador Rubens Muzio, missionário da SEPAL: “Há duas faces do Nordeste: a litorânea e a sertaneja”. O litoral tem praias paradisíacas de água morna o ano todo, com shoppings modernos, movimentado comércio e grande concentração de igrejas evangélicas. À beira-mar a igreja nordestina tem crescido mais rapidamente que qualquer região do país.

No sertão, contudo, temos um Nordeste de evidente miséria humana, injustiça social avassaladora, predominância católica, extrema idolatria, onde a presença evangélica mostra-se ínfima, não passa de 3% da população. As igrejas não passam de 20-30 membros e têm acanhada capacidade de expansão. De modo que emerge a necessidade de realização de projetos específicos, mobilização de plantadores de igrejas, parceria com igrejas litorâneas, treinamento formal e informal de sertanejos que permaneçam no sertão, vencendo assim a tentação do êxodo para o litoral.

Em um país cuja população evangélica é de 25%, uma região com 3% significa um disparate, uma carência ou, antes de tudo, um alerta e um grande chamado para quem quer ver e ouvir. Se estivéssemos na Europa, dividida em diferentes países, poderíamos dizer que tínhamos um continente amplamente evangelizado com um país não evangelizado em seu seio. Esse é o sertão nordestino.

Esse é o nosso “país” não evangelizado.

Essas estatísticas e números são muito mais do que avaliações vazias. Se nós tivermos corações semelhantes ao de Neemias ou de Paulo não ficaremos inertes diante desse quadro.

Há um “país” dentro de nosso país que clama por ajuda. Se realmente quisermos uma revelação da vontade de Deus, isto será o nosso “varão macedônico”. Ignorar esses números pode ser uma omissão séria.

HUDSON TAYLOR E A MISSÃO PARA O INTERIOR DA CHINA

Hudson Taylor foi o homem que, talvez por sua visão, contribuiu de forma especial para a evangelização da China. Com a fundação da Missão para o Menor da China ele apresentou uma nova visão para o trabalho missionário naquele país. Sua insistência era para que as missões começassem a trabalhar não apenas no litoral, como era feito havia muito tempo, mas começassem a visar o interior. A pergunta geral era: “Para que alguém se embrenharia nos continentes, se o trabalho de evangelização nos litorais ainda não foi terminado?”.

Devido à insistência de Hudson Taylor esse conceito foi sendo alterado. Logo surgiram novas agências missionárias com ênfase de penetração nas regiões interiores: Missão para o Interior do Sudão, Missão do Interior da África, Missão ao Interior Africano, União Missionária às Regiões Distantes e outras que refletiam essa preocupação de penetrar no continente. Não só a China, mas a África e outras regiões são devedoras à visão de Taylor.

E nós, continuaremos apreciando crescimentos vertiginosos em algumas áreas de nossa nação-continente, enquanto áreas como o sertão nordestino minguam e milhares ali morrem sem salvação? Vamos permitir que esse poderoso exemplo histórico passe de largo sem nos influenciar? Ou vamos partir para o sertão reconhecendo a máxima que diz: “onde há uma necessidade há um chamado”?

 UM PONTO ESPECÍFICO COMO EXEMPLO

A região do Cariri, situada no sul do Estado do Ceará, é composta por 33 municípios encravados nas divisas com os Estados de Pernambuco, Piauí e Paraíba, em todo o prolongamento da Chapada do Araripe. É uma região pouco desenvolvida em termos econômicos e sociais.

Coincide, em parte, com a área de ocorrência da caatinga, apresentando paisagem árida, de solo pedregoso, vegetação arbustiva repleta de cactos. Com uma população de aproximadamente 900 mil pessoas. Possui menos de 35 mil evangélicos, o que representaria menos de 4% da população, apesar da grande religiosidade evidente.

Algumas cidades, como Araripe e Caririaçu, têm um percentual de evangélicos inferior a 1%. Granjeiro, uma pequena cidade com população aproximada de 5.5 mil habitantes, não possui mais do que 4 evangélicos conhecidos. Isto tornaria essa região uma das menos evangelizadas do Brasil. Para alguns ministérios ali estabelecidos, esta seria uma das mais difíceis do mundo para evangelizar.

A tradição em torno do Padre Cícero continua bastante forte, mas mesmo assim é possível perceber certa receptividade da população. Sua religiosidade natural permite à Igreja pregar o evangelho, utilizando-se de estratégias corretas.

UM DESAFIO PARA A IGREJA EVANGÉLICA BRASILEIRA

Albert Einstein disse acertadamente: “Não podemos esperar resultados diferentes realizando sempre as mesmas coisas”. Se assim for, precisamos rever nossas prioridades de evangelização, nossos métodos e encarar de verdade o grande chamado para todo crente brasileiro, que é trabalhar no sertão nordestino. Compreendemos a simultaneidade do chamado evangelístico de Atos 1.8, ou seja, não devemos ir para além-mar apenas quando tivermos concluído o trabalho aqui; mas também não está correto partirmos para os que estão longe, abandonando aqueles que carecem em nossa “Jerusalém” ou em nossa “Judeia”. A árvore que oferece sombras e frutos, junto ao tronco é ainda mais frutífera!

Nessa região do nosso “quintal evangelístico” há necessidade de tudo. Plantação de igrejas, treinamento de obreiro, ações sociais, discipulado, evangelização, empreendimentos em diversas áreas que possam mudar a estrutura da região.

É preciso conhecer a linguagem do sertanejo e comunicar a ele, dentro de sua cultura e visão de mundo, a mensagem poderosa do evangelho. Mais do que desigualdade social, ao olharmos esse quadro, temos uma desigualdade espiritual, que não será sanada sem uma ação concentrada, permanente e organizada da Igreja evangélica do Brasil.

Os desafios da Igreja brasileira em relação ao Nordeste são primeiramente aqueles desafios dos discípulos chamados para seguir a Jesus. O desafio da comodidade, o desafio da procrastinação e o desafio do medo. É o que vemos em Lucas 9.57-62: Quando andavam pelo caminho, um homem lhe disse: “Eu te seguirei por onde quer que vá”. Jesus respondeu: “As raposas têm suas tocas e as aves do céu têm seus ninhos, mas o Filho do homem não tem onde repousar a cabeça”. A outro disse: “Siga-me”. Mas o homem respondeu: “Senhor, deixa-me ir primeiro sepultar meu pai”. Jesus lhe disse: “Deixe que os mortos sepultem os seus próprios mortos; você, porém, vá e proclame o Reino de Deus”. Ainda outro disse: “Vou seguir-te, Senhor, mas deixa-me primeiro voltar e despedir-me da minha família”. Jesus respondeu: “Ninguém que põe a mão no arado e olha para trás é apto para o Reino de Deus”.

  1. O desafio da comodidade.

Em um ambiente em que as pessoas procuram uma igreja cujo prédio disponha de um bom sistema de ar-condicionado, bancos almofadados etc. é desafiador falar da perda dessas comodidades. Se o amor de Cristo que nos constrange não for a única motivação para se dirigir à igreja, então não será possível chegar ao sertão ou outras regiões carentes.

Um Jesus que “não tem onde reclinar a cabeça” não parece muito atrativo para o mundo moderno, nem para a Igreja moderna. Ainda assim, os poucos que têm se aventurado e procurado mudar o ambiente do sertão nordestino pelo poder do evangelho e pelo amor de Deus demonstram que o Espírito tem encontrado resposta ao seu chamado. E você também pode ser um desses que dirá eis-me aqui e ajudará a mudar a face dessa região, assim como um dia missionários de terras distantes vieram ao inóspito Brasil e o ajudou a se tornar uma nação evangélica.

O clima nordestino atrai crentes turistas para as praias do seu litoral, mas não atrai missionários para o seu interior!

  1. O desafio da procrastinação.

Mesmo sem saber o que significa, as pessoas procrastinam. Elas deixam as coisas para serem feitas depois, mesmo as mais urgentes e necessárias. Isso é procrastinar. “Enterrar o pai” significava esperar ele morrer, para só então seguir o chamado de Jesus.  Muitos estão esperando “a morte do pai” para cumprir o chamado. Primeiro se casar, primeiro se formar, primeiro ter a conversão da família, primeiro o carro, primeiro a casa, o emprego, a estabilidade financeira. E se sobrar tempo o chamado.

Não poucos têm sido pessoalmente tocados por Deus e despertados para agir. Não lhes falta talento, não lhes falta consciência da necessidade. Entretanto, deixam para amanhã. Aguardam que alguma situação específica se resolva antes, embora saibamque o tempo disso seja incerto e pode demorar. Sabem que o tempo é hoje e a hora é agora, mas dizem “primeiro…”.

Primeiro é Deus. Primeiro é Jesus. Primeiro é o evangelho e o reino de Deus. Esse ensino bíblico, todavia, tornou-se impopular demais em um mundo repleto de oportunidades e necessidades desnecessárias. Não amanhã, mas hoje. Não depois, mas agora. E deixe os mortos enterrar seus mortos. Você, porém, vá e anuncie o reino de Deus no Nordeste. Quanto tempo mais a Igreja brasileira esperará para aceitar o desafio do sertão nordestino?

  1. O desafio do medo

Por trás de muitas das nossas desculpas está o medo. Por causa dele deixamos de avançar e seguir em frente. Olhamos para trás. E para justificar nossa consciência usamos toda sorte de argumentos. Despedir-se “dos da minha casa” é uma delas.

O amanhã é incerto. Sempre será incerto. Não importa o que você tenha e o que você faça. Toda tentativa de garanti-lo tem se mostrado frustrada e frustrante dentro da experiência humana. O lugar mais seguro é onde Deus nos quer. Em todo campo há lutas, e o campo missionário não é exceção.

Esse rapaz talvez tivesse participado de alguns trabalhos com Jesus e sofrido afrontas. Quem sabe privações e ameaças. Agora, ele, cujas mãos já tinham estado tão firmes no arado, o solta e quer voltar para sua casa, para o convívio com os seus. Ele teme.

Não é uma história muito diferente de outros que já estiveram em campo e foram frutíferos, apesar das lutas. Agora, só de pensar nas aflições ficam paralisados e imediatamente encontram razões e motivos diversos para permanecerem onde estão. Puseram suas mãos no arado e depois olharam para trás. Esses também precisam ser despertados.

Há formas práticas de pôr o seu chamado em ação e seus talentos a serviço do reino de Deus. “Venha o teu Reino” não é apenas uma oração a ser decorada. É um desejo que deve ser ardente no coração de todo filho de Deus. É a suprema tarefa para a qual ele é chamado e comissionado.